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Um bailarino chamado Rubens Rocha.

Um bailarino chamado Rubens Rocha.

Quando o assunto é pontualidade, sou um mestre em atrasos. Como dessa vez marquei a entrevista com um disciplinado bailarino, adiantei o relógio e sai meia hora mais cedo de casa para não haver imprevisto.

Cheguei 20 minutos antes no local combinado, um barzinho bem descolado no centro do Rio, que o próprio Rubens sugeriu. Pedi uma água, um copo com gelo e comecei a me organizar para fazer a entrevista. Cinco minutos depois avisto um negro ereto, com um sorriso contagiante vindo em minha direção. Olhei o relógio, faltavam 15 minutos para o horário marcado. De repente ele se aproximou e falou: “Desculpa o atraso, é que o trânsito hoje está horrível”. Fiquei pasmo com tamanha elegância e pontualidade. Quando pensei em convidá-lo a beber algo, ele se adiantou: “Vamos beber uma cervejinha bem gelada?”

Foi com muito “chica chica boom chic”, precisão e vivacidade, que o maitre de ballet Rubens Rocha, de 49 anos, falou abertamente sobre sua vida, seus trinta anos de carreira e a adoração pela noite carioca.

 Nota Diária – Como foi que senhor começou a dançar?

Rubens Rocha: Na verdade comecei fazendo ginástica olímpica aos 15 anos. Depois fui apresentado ao balé. O meu professor de ginástica que também dava aula de jazz, um dia me convidou para fazer uma aula na academia de dança que ele trabalhava. Fui, fiz a aula, mas não gostei daquilo, achei que não era o que eu estava procurando. Saindo da academia, passei por uma sala que estava tendo aula de balé, olhei e pensei: “é isso!” Foi amor a primeira vista. Mas não bastava ficar dançando em Vitória-ES, minha terra natal, eu queria vir para o Rio de Janeiro estudar na escola de dança Tatiana Leskova e tentar a vida como bailarino profissional.

NT -Quais as dificuldades de estar sozinho no Rio de Janeiro?

RR: A primeira delas foi o fato de estar sozinho, sem meus pais. Falo isso nos dois sentidos: financeiro e emocional. Tive que morar na casa de parentes de terceiro grau que não acreditavam na minha carreira, foram os quatro meses mais longos da minha vida. Graças a Deus, tive a sorte de conhecer Fauzi Mansur, na escola de D. Tatiana Leskova, que me convidou para morar com ele, sem ter que arcar com nehuma despesa na casa. Com isso tive tempo e cabeça para cuidar do meu ofício.

NT – Em algum momento, ser negro e baixo para o padrão de altura de um bailarino clássico, te atrapalhou?

RR: Nunca parei para pensar nisso até chegar no Rio. Aos poucos fui vendo que realmente essa história de preconceito existia. Mas consegui driblá-lo graças ao meu talento.

NT -Quais companhias de dança o senhor já trabalhou?

RR: Comecei trabalhando na Cia de dança de D. Tatiana Leskova, Novo Ballet da Juventude, como primeiro bailarino. Depois fui para o Ballet do Terceiro Mundo, com direção de Ciro Barcellos, onde dancei todos os trabalhos da cia como primeiro bailarino também. Na sequência, fui para Curitiba prestar concurso público para o Teatro Guaíra, onde passei em primeiro lugar e me tornei solista concursado do teatro. Mas, por amor a uma pessoa que não merece que eu fale seu nome, voltei para o Rio, largando tudo que conquistei em Curitiba. Voltando para o Rio tive que construir tudo novamente, dancei na Companhia de Ballet da Cidade de Niteroi por algum tempo… Fiz outros trabalhos, como: ponta em novela pra ganhar algum, dar aulas de dança onde pintava, dançar em companhias desestruturadas e por ai vai… Até que fui chamado para fazer a audição de uma Cia só de bailarinos homens negros: a Rubens Barbot, onde trabalhei por seis anos e voltei a dançar agora depois de 10 anos longe da Cia. (pausa) Quase esqueci de falar que dancei Bolero de Ravel sobe a direção de Maurice Bejart.

NT -Quais trabalhos o senhor considera ter um peso ainda hoje, se fossem remontados?

RR: Acredito que “Canibais Eróticos”, do Ballet do Terceiro Mundo. Fomos uma companhia vanguardista, estávamos a frente. Todos os artistas daquela época ia nos assistir, a casa estava sempre lotada, vivíamos bem com 2% do borderô para cada um. Realmente tinhamos uma base, um peso e uma sólida história pra contar.

NT -Certa vez ouvi o senhor falar que sua vida está dividida em ciclos, é verdade?

RR: Sim. Mas fui reparar isso depois de algum tempo. Fui vendo que as coisas para mim sempre mudam de quatro em quatro anos ou de seis em seis anos. Quando menos espero, uma coisa me inquieta, é o primeiro sinal, depois vem a transformação, dando um giro de 180 graus…rsrsrsrs. É maravilhoso!

NT -É verdade que senhor adora a noite?

RR: Verdade. Sempre gostei da noite pelo simples motivo dela ser minha válvula de escape. Sempre tive a vida muito agitada, precisava relaxar. Quero dizer: preciso.

NT -E essa adoração, já atrapalhou na sua carreira?

RR: Apenas uma vez, quando quebrei o dente e no dia seguinte tinha uma apresentação.

NT -Sobre essa coqueluche de companhias de dança contemporânea, como o senhor enxerga isso?

RR: Acho errado quando você fala coqueluche. Acredito em pouquíssemos trabalhos que vejo hoje em dia. Não temos muitas companhias boas no Brasil, por isso não é uma coqueluche!

NT -A dança em algum momento se perdeu?

RR: Acredito que ela sempre se acha, com mais dificuldade, mas se acha. Tem muita gente fazendo qualquer coisa e chamando aquilo de dança. Todos os trabalhos que dancei tinha um embasamento teórico e prático. Falta isso para algumas delas. Confesso que isso me deixa triste e um pouco chateado.

NT -O que faltam as escolas hoje em relação a sua época de formação?

RR: O primordial: disciplina e atitude.

 NT -É verdade que está gravando um filme como ator, como isso se deu?

RR: Não gosto de ser chamado de ator, não fiz uma escola. Sou bailarino por formação e acredito muito que para trabalhar em qualquer área é preciso estudar e se formar. É um filme que conta a trajetória da Companhia Rubens Barbot. Não faço nada além de eu mesmo no filme.

NT -Quais são seus planos para os próximos trinta anos de carreira?

RR: Como vou saber, esqueceu que vivo através de ciclos?kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk.

Na Foto: Rubens Rocha e Giselda Fernandes.

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2 Comentários

  1. História de um verdadeiro lutador. Ser bailarino hj em dia no Brasil é difícil mas é muito mais fácil do que há 30 anos!!! Parabéns pelo talento!

  2. SOU GRANDE ADMIRADORA DO TRABALHO DA COMPANHIA RUBENS BARBOT QUE CONHECI ATRAVES DE RUBENS ROCHA, GRANDE PRAZER E MIL FILMINHOS PASSANDO SOBRE A TRAGETORIA DE LUTA EM PROL DA DANÇA DESTE MARAVILHOSO PROFISSIONAL.
    E A LUTA CONTINUA!

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